sábado, 7 de julho de 2012

Os projectos

8 de Julho de 2012

Lá se passaram muitos dias sem notícias. Aconteceram coisas muito boas, como a alegria de trabalhar com um grupo que me deixa sempre muito motivada e com vontade de fazer muitas coisas.

Depois de duas semanas de trabalho – a que passou foi de pausa por causa de umas eleições muito pacíficas –, já temos uma ideia para cada curso, agora só nos falta fazer os projectos, começar a recolher materiais, tirar muitas fotografias e trabalhar, trabalhar, trabalhar!

Também coloquei um pedido no Facebook: precisamos de catálogos de roupa, mobiliário e tudo o que possa estar relacionado com as áreas deles. O que pretendemos é criar um banco de recursos. Já que cá não há quase nada e nós não podemos ir até às coisas, vamos tentar que as coisas venham até nós.

Eis que se aproxima o trabalho… finalmente!

Depois de algumas reuniões, as coisas estão a tomar forma e já nos foi distribuído trabalho. Neste momento, estamos a fazer a revisão linguística de alguns planos curriculares.

As alegrias

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A cidália foi minha aluna na licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa, na UNTL, em 2008. Foi a vencedora do 1.º prémio literário Ruy Cinatti e, por isso, pôde publicar a sua primeira obra. A apresentação aconteceu durante a feira do livro de Baucau. Infelizmente não fui, mas estou muito orgulhosa. A cidade está cheia de banners como este. E este está mesmo à saída da primeira casa que tive quando regressei. :)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Água de coco


Dizem que quem bebe água de coco volta sempre a Timor.
Eu, por acaso, gosto mesmo muito de uma água de coco fresquinha... será que isso significa que vou ficar por cá para sempre?

(Fotografia de David Rodrigues)

Há alguma coisa mais bonita que os sorrisos das crianças timorenses?

16 de Junho de 2012




Ontem fui conhecer a minha escola, a Escola de Hotelaria e Turismo de Díli. Apesar de dar aulas numa escola lá ao lado, é lá que vou desenvolver actividades extracurriculares. Esta era a minha escola de eleição, desde a reunião em Aveiro em que nos entregaram a lista de distritos e de escolas. Tem dois cursos que me interessam bastante: culinária e costura. Não esperava grandes condições, mesmo assim, não quis deixar passar a oportunidade.


Bem, ontem fui lá e as minhas expectativas confirmaram-se: a escola não tem grandes condições, mas o espaço é muito agradável e as pessoas parecem-me motivadas. Tive oportunidade de falar com alguns alunos e conseguimos comunicar em português. Também vi os pratos que estavam a preparar para o almoço dos professores e estavam muito bonitos: salada de alface, couve e peixe assado. Pareceu-me ter ai manas, um preparado de pimento muito picante, que literalmente nos deixa em fogo. ;)


Hoje fui com uns amigos a Bazartete com descida por Railaco e passagem em Tibar. Já conhecia uma parte do caminho, pois trabalhei na zona de Bazartete, em Bogoró, e acho que cheguei a ir a uma escola em Bazartete, quando fiz acompanhamento de professores.


Devíamos ter ido ao Ramelau, mas este passeio foi uma delícia. A floresta e densa. Vimos muitas madres cacau e pés de café carregadinhos. A estrada é má, mas está melhor do que estava. Tirei fotos a umas meninas lindas que me deixaram muito feliz e até conheci uma senhora, a D. Martina – pelo menos foi isto que percebi –, que falava português. Tirei fotos com ela.


Díli cansa… e está cada vez mais cheia de carros, mas se sairmos daqui, facilmente encontramos o verdadeiro Timor, aquele em que o verde é mais verde e a terra pode ser vermelha; aquele onde os arrozais dominam a paisagem e os sorrisos vão até à alma. Não sei se é por isto que volto sempre, mas não é fácil voltar costas a dádivas assim.


O dia de hoje foi uma verdadeira bênção!
13 de Junho de 2012



Depois de uma noite mal dormida e uma manhã de trabalho, resolvi ir assistir aos seminários da tarde, no Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões, na UNTL (Universidade Nacional de Timor Lorosa’e). O primeiro chamava-se “A Língua Portuguesa e a diversidade linguística em Timor-Leste” e foi apresentado pela Prof. Eugénia de Jesus das Neves. O segundo tinha como título “Construir a igualdade na diferença: modelos de educação bilingue. O debate sobre as línguas maternas em Timor-Leste” e foi apresentado pelo Prof. Alan Sílvio Ribeiro Carneiro. Quer um, quer o outro levantaram questões interessantes.


No primeiro caso, as questões prendem-se com a necessidade de fixação de uma norma para o Tétum, face a alguns desvios e até empréstimos desnecessários. No segundo caso, foram abordadas algumas questões relativas a vários projectos que estão neste momento no terreno, no âmbito do ensino primário, nomeadamente o das escolas de referência, o projecto das línguas maternas e a escola FOUN, da Unicef. O alerta mais importante deixado pelo professor Alan, tem a ver com a necessidade de se fazerem alguns estudos para perceber as vantagens e desvantagens de cada projecto, de modo a poder-se perceber qual será o caminho a percorrer.

Entretanto, acabei o trabalho que tinha em mãos.

Era suposto ir assistir ao Portugal-Dinamarca ao Palácio do Governo, mas estou cansada e dormi mal nas duas últimas noites… Amanhã saberei o resultado! Quando o resto do nosso grupo chegar de Portugal, o que espero que aconteça em breve, se ainda houver jogos de Portugal, vou assistir e tirar fotografias.
12 de Junho de 2012



Ontem reunimos com os directores das escolas técnicas. Sexta-feira irei conhecer a minha escola. Já sei que não tem muitas condições, o que não me surpreende. Espero, apesar das contingências, conseguir fazer actividades interessantes com o grupo de professores com quem vou trabalhar. Tenho algumas ideias, mas também quero ouvir as deles. As áreas são todas interessantes, quero saber o que é que eles acham que faz falta e pensar com eles em maneiras de colmatar as faltas e as falhas.


De manhã fui ao aeroporto com um colega, para ver se era hoje que recuperávamos a nossa bagagem não acompanhada. Infelizmente, ainda vamos ter que esperar que alguns procedimentos burocráticos sejam ultrapassados.


Depois disso, fui para o Centro de Língua, onde decorriam alguns seminários subordinados ao tema “10 anos de independência: Perspectivas da Língua Portuguesa em Timor-Leste”. Infelizmente já não apanhei o seminário da Prof. Ana Margarida Ramos, mas consegui participar no do Prof. Valente de Araújo e da Prof. Maria da Cunha. O primeiro era sobre o ritual Ai-Hulun no suco de Mauchigo, em Ainaro. O segundo intitulava-se “A (re)construção de Timor-Leste no olhar de Luís Cardoso. Crónica de uma travessia, A época do Aidik-Funam”.


Durante o primeiro seminário, quando o prof. Valente explicava que para chamar as enguias da nascente cantavam em mambae “Ó enguia, enguia, sai para cá para brincarmos juntos”, lembrei-me de um episódio da Rua Sésamo, em que o Egas e o Becas estavam num barco e o Egas tentava, sem grande sucesso, pescar algum peixe. O Becas, a dada altura, diz-lhe que, para pescar, deve gritar “peixe, peixe, peixe”. O Egas não tem muita sorte, mas o Becas, com esse grito, consegue que os peixes saltem para dentro do barco.


No Centro de Língua pude rever muitos amigos e fiquei a saber de mais algumas mudanças. Infelizmente tive que vir para casa antes do último seminário do dia, para trabalhar um bocadinho.
Díli, 10 de Junho de 2012



O trabalho já começou. Foi-nos pedido que fizéssemos revisão de alguns textos.
Segunda-feira vamos reunir com os directores das escolas.

Estou muito motivada! Tinha uma preferência desde que vi a lista das escolas, ainda em Aveiro: a Escola de Hotelaria e Turismo. É para lá que vou. Dois dos quatro cursos estão relacionados com áreas que me interessam bastante: culinária e costura. O curso de turismo também me interessa, uma vez que cheguei a pensar em ser guia-intérprete, e Timor está a rebentar de potencialidades turísticas. Cabeleireiro é a área com que menos me identifico, mas é sempre bom aprender mais, e quero aprender muito com os meus formandos!
 Hoje foi feita uma pequena cerimónia para assinalar o 10 de Junho. Depois de os alunos da Escola Portuguesa Ruy Cinatti cantarem, muito bem!, os hinos de Timor e Portugal, o Embaixador colocou uma coroa de flores no monumento de homenagem ao Eng. Canto Resende, um engenheiro geógrafo português, que foi administrador do território até 1945, altura em que foi preso pelos japoneses, tendo morrido em cativeiro. Foi uma cerimónia bastante simples e bem diferente das dos anos anteriores, que incluíam uma recepção na residência oficial do embaixador ou na Escola Portuguesa. Tenho que confessar, não sei se já tinha reparado no dito monumento. Costumo caminhar para aqueles lados, quando não posso caminhar para sítios com menos trânsito, mas só reparei no monumento depois de ser pintado para a dita cerimónia.

Díli, 29 de Maio de 2012 (e terminado a 10 de Junho...)

E eis que tudo se precipitou. Dia 22 recebemos um email a avisar que a viagem aconteceria no dia 24. Escalas: Frankfurt, Doha, Singapura, Bali.


As despedidas da família são cada vez mais difíceis…


A viagem correu bem. Apesar de não conseguir dormir, acho que já aprendi a deixar o tempo passar sem me preocupar muito com ele. Vi alguns episódios do Glee, não tinha capacidade de concentração para ver filmes. Também não consegui ler.


Chegar a Timor foi muito bom, parece que nunca saí. Senti o mesmo calor, a mesma familiaridade… apesar de alguns sítios estarem um pouco mais polidos, tudo o que era bom continua bom e o que não era… continua à espera de melhores dias.


Explico: Díli está um pouquinho mais limpa e menos esburacada. A marginal está toda renovada: tem passeios marítimos, bancos a imitar sofás e uma zona com ondas de wi-fi, perto do largo de Lacidere. Há casas de banho, daquelas plásticas, de festival, mas já estão seladas com fita-cola. Do lado da avenida do farol também há mudanças: está tudo esburacado à espera de passeios mais sofisticados. Em ambas as avenidas, todos os dias é possível ver pessoas a recolher lixo e a lavar a obra feita. Espero que o estado de limpeza seja para manter e para promover!


Os preços estão altíssimos, quer nos supermercados, quer no mercado em frente ao Lita. Um saco de legumes para sopa custa 7.20 USD. Pediram-me 3 USD por um ananás minúsculo…


Cheguei a tempo do desluto de um amigo. O desluto é uma cerimónia que se faz um ano depois da morte de alguém. Serve para deixar a roupa preta e para, mais uma vez, prestar homenagem a quem morreu.


No caso, fiquei muito satisfeita por ter chegado a tempo, a pessoa em causa era de família, apoiou-nos muito quando precisámos, era incansável. Ver o estado a que chegou foi muito triste. Tive oportunidade de vê-lo antes de sair, em Outubro de 2010 e foi mau.


A cerimónia incluiu uma missa, uma ida ao cemitério com deposição de flores e um jantar de confraternização. Foi nesta fase que participei. Para quem não está habituado a este tipo de cerimónias, pode parecer um pouco estranho, mas até fazem um certo sentido. É como que uma forma de, colectivamente, a família e os amigos “terminarem” o período de maior dor, de se confortarem pela perda…

terça-feira, 22 de maio de 2012

A viagem antes da viagem


A viagem começa muito antes de entrar no avião. Há que arrumar a roupa e as expectativas. Os sonhos.
Estou entre as pessoas que deixo, as pessoas que sei que vou encontrar e as que me esperam sem eu saber que o fazem.
A todas quero dar o melhor de mim, a todas quero provocar sorrisos e momentos felizes.
Estou muito grata a Deus, tem-me abençoado com muitas pessoas que guardo sempre no coração.
A todas, as de lá e as de cá: até breve!

A viagem...

... está marcada para quinta-feira. 
Ainda não tenho o bilhete, por isso não sei horas ou escalas.
Sábado, se tudo correr bem, estarei em Timor.
Até lá!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

"A montanha mágica", UP, Maio 2012

Timor-Leste comemora este mês dez anos de independência. Na exígua metade de uma ilha, nos confins da Ásia, a Nação do Milénio é um mosaico de povos e de línguas, unidos por tradições seculares e mitos ancestrais. Timor é, também, um sonho coletivo onde a geologia faz a síntese entre cultura e território, Estado e recursos, esperança e memória. Bem-vindos à montanha mágica.


Primeiro, um nome. Lorosa’e, ou Sol Nascente – título oficial do jovem país – é um sedimento inscrito no chão timorense, de diversas formas, todas importantes para definir e viabilizar a República Democrática de Timor-Leste nascida a 20 de maio de 2002. Sol é o astro masculino, referência primordial e cósmica deste povo de “filhos do céu, filhos das estrelas”, como diz uma recitação sagrada do povo Mambai, no coração montanhoso da ilha. O Sol, símbolo de poder, continua a ser usado, sob a forma de medalhão dourado, em todas as cerimónias tradicionais, não apenas religiosas ou folclóricas, mas também políticas. É normal, aliás, que os principais homens da política timorense passem – no sentido mais sério de mediação, de trânsito entre mundos – por celebrações em que vestem o lorosa’e e esse outro símbolo mais visível de poder na cosmogonia timorense, o caibau (ou kaibauk), representando a Lua. Ter poder sobre o Sol e a Lua é dominar a vida e a morte, ou seja, ter o poder absoluto.

Em Timor-Leste, a independência governa-se a partir das duas únicas cidades do país – Díli e Baucau, ambas situadas na costa norte – mas foi ganha nas montanhas, ali tão longe e tão perto. Foi lá, nos maciços do Matebian e do Mundo Perdido, a leste, e do Ramelau, no centro, que os guerrilheiros liderados por Xanana Gusmão mantiveram acesa durante 24 anos a chama da causa timorense. Há uma literalidade topográfica, física, na relação simbólica entre independência, nação e montanha, como fica patente no primeiro verso de “Pátria”, o mais famoso poema-de-prisioneiro do próprio Xanana Gusmão (atual primeiro-ministro): “Pátria é, pois, o sol que deu o ser”.

O sol “dá o ser” a Timor-Leste de outras formas vitais. A viabilização do pequeno país depende do petróleo – que mais não é que sol acumulado no coração da Terra, conforme explicam os geólogos na sua linguagem evidente. É o petróleo – sedimentação de passado, cozedura mineral de muitos tempos que já foram mas que guardam intacta a sua energia – que pode pagar o projeto da independência para as gerações futuras. Isso é crucial para um pequeno país onde apenas quatro por cento do território é arável – a montanha é em todo o lado – e que regista, nos últimos anos, o maior crescimento demográfico do mundo.

Uma das realizações da independência foi a constituição, em 2005, do Fundo Petrolífero, o fundo soberano de Timor-Leste, onde a riqueza proveniente das jazidas do Mar de Timor é acumulada e aplicada segundo regras que pretendem garantir a sustentabilidade deste tesouro nacional. O Fundo e as suas regras rígidas “tem como objetivos a preservação da equidade intergeneracional e a manutenção da responsabilidade fiscal”, na explicação do Governo timorense. A transparência e racionalidade do Fundo têm sido, de resto, elogiadas por várias instituições internacionais. Essa prudência de gestão, vinculada constitucionalmente, salvou o Fundo Petrolífero de Timor-Leste de levar um golpe profundo na crise financeira de 2008, como aconteceu à generalidade dos fundos soberanos de muitos países, incluindo de muitos Estados bastante mais desenvolvidos. Em fevereiro de 2012, o saldo do Fundo era de 9,9 mil milhões de dólares. O Fundo tem hoje investido 12,5% do seu capital (aproximadamente 1,2 mil milhões de dólares) em 1800 empresas em 23 países desenvolvidos.

Os desafios da jovem nação, que são consensuais entre Governo, oposição e parceiros internacionais, situam-se, naturalmente, na criação e diversificação da economia não petrolífera e na redução dos níveis de pobreza, que afeta cerca de 40 por cento da população. Timor-Leste continua a ser, nesse aspeto, “um problema florestal”, como resumia um governador português do território no século XIX que tentou – à força e pela força, diga-se – introduzir a cultura intensiva do café, reproduzindo o “sucesso” das plantações holandesas de Java, exemplo precoce do desastre da repetição de modelos “de fora”. É da terra, em qualquer sentido, que pode sair o equilíbrio económico que salve Timor-Leste da “resource curse”, ou “mal holandês” de países muito dependentes de recursos minerais finitos. O maná do Mar de Timor acaba já na próxima geração e “Timor-Leste é um país petrolífero sem muito petróleo”, conforme têm alertado organizações não-governamentais timorenses.

Percorrendo o país, hoje, o “problema florestal”, em senso lato, ganha provavelmente mais acutilância. A ilha, que no século XVI era definida pelo português Tomé Pires (autor da magnífica Suma Oriental) como o lugar “lá onde nasce o sândalo”, há muito que deixou de produzir e exportar madeira preciosa. Foi o sândalo, recordemos, que levou os chineses a esta periferia do Arquipélago Malaio – o Mediterrâneo chinês, chamou-lhe o historiador francês Denis Lombard –, muito antes da chegada dos primeiros europeus. Diz-se que, outrora, era possível apanhar o odor quente do sândalo ao longe, mesmo antes de avistar a ilha. Hoje, exaurida a cultura autóctone do sândalo, os esforços dirigem-se, por exemplo, para dar nobreza (e rendimento) à cultura do café, com certificação de produção biológica e a afirmação de uma marca-Timor em mercados internacionais dispostos a pagar bem o café de exceção – ou o arroz, ou, outro exemplo, a baunilha, autêntica pedra preciosa aromática de alta rentabilidade que os agrónomos procuram difundir junto dos agricultores timorenses.

Para onde olhemos, pois, Timor-Leste é uma ecologia. Isto é: um universo que exige a procura constante – e milenar, dizem os registos arqueológicos que na última década têm produzido revelações surpreendentes – da linguagem adequada para o Homem se inscrever na paisagem. Até a paisagem se transformar na única possibilidade de articulação do indivíduo com o seu grupo, o seu clã, a sua nação e, hoje, com o seu Estado. A paisagem – a árvore, a pedra, a água, a cobra, o crocodilo, a montanha – é vida e vive com alma, é a alma. Não por acaso, a luta pela independência foi assumidamente uma luta por um chão que, na tradição animista dos povos timorenses, é orgânico e é divino. O Tata Mai Lau, o pico mais elevado da ilha, na cordilheira do Ramelau, significa “Pico do Avô”. Essa etimologia ganha evidência quando se assiste ao nascer do sol lá do alto. Não pelo Lorosa’e, magnífico e puro, mas pela sombra pontiaguda da montanha, uma sombra maciça, que por momentos, entre a noite e o dia, cobre todo o país para Poente, nas nossas costas. Quanto a Matebian, o grande maciço do Leste do país, santuário antropológico, que tem dois picos (o “Homem” e o “Mulher”, que é aliás o mais elevado, ao contrário do que dizem os mapas estrangeiros) significa “Casa dos Mortos” ou “Monte dos Mortos”, no sentido de morada dos antepassados. Que ambas as montanhas tenham sido santuários das Falintil, a resistência timorense, tem uma implicação espiritual que vai muito além do uso da topografia em táticas de guerrilha…

Um mito fundador do reino de Wehali, no centro da ilha, conta que esta terra foi “a primeira a ficar seca quando o mar primordial recuou”. O ataque à identidade timorense, sob a ocupação indonésia, foi também (sobretudo?) uma ofensiva de substituição cultural – em Timor alude-se à “javanização” do território. Porque a resistência não termina quando termina a ocupação, a primeira década de independência tem assistido a uma política consistente de recuperação de várias expressões culturais tradicionais timorenses, das quais a mais visível é a arquitetura. Arquitetura, em Timor-Leste, não é “apenas” o desenho e a solução física – também, mas não sobretudo. A casa sagrada, ou uma lulik, é o lugar correto do homem no cosmos. Os pilares são cardeais – orientam os mundos – e as portas são passagens entre um interior original e o exterior mundano. As portas, aliás, têm nome, além de terem códigos e interditos. Não é de estranhar que, em algumas regiões, as portas das uma lulik sejam nomeadas pelo mesmo vocábulo que designa o útero ou a vagina.

Construir a casa é fazer renascer simbolicamente o clã, um grupo que se reclama descendente de um mesmo antepassado mítico e que, em ocasiões específicas, se reúne para que os seus guardiões da palavra (literalmente, lia nain) repitam a narrativa constitutiva e diferenciadora do clã. A narrativa não é um hino. A lenda partilhada por todos é a pátria. É desta forma, certamente, que Timor-Leste assinalará no próximo 20 de maio o seu renascimento como clã alargado: um país é uma casa sagrada. A sua construção é uma sagração – e nada menos.

por Pedro Rosa Mendes

http://upmagazine-tap.com/pt_artigos/a-montanha-magica/

sábado, 12 de maio de 2012

Contrato assinado

Depois de uma semana de muitas incertezas, ontem, finalmente, assinei contrato, integrada no primeiro grupo de professores a fazê-lo. Desta vez houve direito a notícia na imprensa, o que não deixou de me surpreender um pouquinho.



Ainda não temos data de viagem, uma vez que com a celebração do 20 de Maio, os voos para Díli estão cheios.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Tempos de espera...

Há 6 anos atrás estava em Baucau. Viviam-se tempos difíceis, os da crise. Os nossos formandos fugiam para as montanhas com tudo o que podiam e nós, sem formandos e proibidos de sair de casa, jogávamos ao jogo das letras, que se desenrolavam em nomes, países, objectos… A Ana deu-nos com cada abada!

Hoje a crise é outra, a da espera. Continuamos sem data. O que é desgastante.

Estou a aproveitar para acabar de ler o Abraço e, entretanto, comecei a ler um livro chamado A alma de Timor vista na sua fantasia, Lendas, fábulas e contos, de Ezequiel Enes Pascoal, um livro editado em 1967, por Barbosa & Xavier, LDA, em Braga. Também quero começar a resolver as lições do Mai Kolia Tetun, de Geoffrey Hull. Sempre me desenrasquei com o pouquíssimo Tétum que sabia, mas acho que é importante aprender a língua materna do meu afilhado, apesar de ele estudar na Escola Portuguesa.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Aveiro


Terça voltámos a Aveiro para mais algumas reuniões e sessões de formação.
Acho que somos um grupo muito especial. Há muitas áreas diferentes representadas e pessoas com percursos de vida, do pouco que pude perceber, muito interessantes.
Estou certa de que faremos um bom trabalho, apesar de todas as condicionantes.

Continuamos sem data para a assinatura do contrato e sem data de partida, mas com a certeza de que tudo está para breve.

Na próxima semana: segunda dose da encefalite japonesa.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Os nossos amigos crocodilos :)

Margarita,
estas são para ti. ;)

Este é o crocodilo do meu afilhado.

Este é o crocodilo do Aquarium de Sydney. Na foto parece pequeno, mas acredita... é enorme!

 Esta é para aprenderes umas coisas. :)

Esta é só para rir... enquanto o crocodilo não nos apanha. :)

Até agora, ainda não aconteceu muito.
Estamos na fase da recolha de materiais, de reuniões e algumas sessões de formação e vacinas!!! Desta vez levei quatro de circunstância (encefalite japonesa, meningite, febre tifóide e reforço da hepatite A e B) e uma que já deveria ter levado há anos (sarampo/papeira/rubéola). 

Amanhã, mais uma viagem para Aveiro, uma cidade bem catita :)

Aveiro, 21 de Março de 2012

Depois de um processo de recrutamento que teve início a 6 de Fevereiro, estamos a preparar o nosso regresso a Timor.
Pelo meio houve vindas ao Continente e a despedida da Madeira: a despedida dos amigos que por lá fiz, a despedida do amigo que lá continua e a despedida dos amigos que fiz na sala de formação. Sim, os meus formandos foram (e são!) meus amigos! Foi difícil sair agora; seria sempre, mas agora estava a trabalhar com dois grupos em que quase todos os elementos estavam motivados e muito empenhados. Saí com o coração cheio. Durante estes últimos meses de formação, houve muitos dias em que tive a certeza que só podia ter escolhido ser professora. Houve muitos momentos em que senti os meus formandos a (re)descobrir o prazer de aprender, em que os senti a apaixonarem-se pelas personagens, a sofrer com elas e a reclamar o destino que lhes foi dado... e  estou muito grata a todos eles por me terem deixado assistir a esses momentos.
Também tive o prazer de ter colegas (agora meus amigos) empenhados, com gosto pelo ensino e com muito respeito pelas pessoas com quem trabalhavam e isso, em muito momentos, fez toda a diferença. Vou ter muitas saudades deles - já tenho - mas esta despedida foi só um até já.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Timor-Leste

O território de Timor-Leste situa-se na metade oriental da ilha de Timor, a norte da Austrália, no extremo do Sudeste Asiático.
A superfície de Timor-Leste tem, aproximadamente, 15 000 km2, repartidos por quatro áreas distintas: a metade leste da ilha com 14 000 km2; o enclave de Oecussi, com 815 km2; a ilha de Ataúro, com 141 km2; e o ilhéu de Jaco, na extremidade leste da ilha, com 11km2.
Timor-Leste possui uma população de cerca de 790 mil habitantes, 51% dos quais pertencentes ao sexo masculino, uma densidade populacional aproximada a 53 hab./km2 e uma média de cinco indivíduos por agregado familiar. A principal fonte de rendimento da país é a agricultura.
O país possui 13 grandes divisões adiministrativas (distritos): Oecussi, Bobonaro, Covalima, Liquiçá, Ermera, Ainaro, Díli, Aileu, Manufahi, Manatuto, Viqueque, Baucau e Lautém. 
A capital é Díli.

Adaptado de Atlas de Timor-Leste, Lidel, 2002