quinta-feira, 1 de maio de 2008

29 de Abril de 2008

Houve muitos anúncios, mas hoje é que foi. Hoje o Gastão Salsinha chegou, finalmente, a Díli.
Este é o momento por que esperávamos. Digo esperávamos porque se acredita que este seja um importante contributo para o final da crise política que começou há dois anos.

Helicópteros sobrevoavam o céu sem parar, quando saí da aula percebi o motivo: Salsinha tinha acabado de chegar. As estradas à volta do Palácio do Governo estavam hiper-congestionadas. Para voltar para casa tivemos que dar uma volta diferente, uma vez que a universidade fica mesmo ao lado do Palácio do Governo, e era para lá que ele estava a ser levado, para ser entregue ao primeiro-ministro, segundo me contaram.
Infelizmente ainda não falo tétum e por isso pouco prcebi das notícias actualizadas e em directo que não paravam de sair do rádio do carro.

Tem acontecido tanta coisa importante de que não tenho falado. Algumas coisas são muito súbtis, daquelas de todos os dias, que parecem insignificantes mas não são, outras são grandes…

A primeira de que quero falar é triste e estúpida, para não dizer mais.
Uma das minhas colegas timorenses da universidade falou-me de uma criança que tinha sido degolada num bairro nos arredores de Díli. Segundo consta, há um fenómeno natural na Indónesia, que pelo que percebi – talvez tenha percebido mal – mais não é do que um géiser – que, quando se manifesta é preciso acalmar. Ora, que melhor maneira de acalmar a natureza do que sacrificar uma criança? Pelos vistos não é só uma, pelo que me disseram têm que ser 30 000! Chocante.

Entre 19 e 23 de Abril, decorreu em Díli a Feira do Livro em Português. Foi uma feira em grande, com vários escritores presentes, vários livros apresentados e algumas conferências e encontros interessantes.
Estiveram presentes Luís Cardoso, António Monteiro Cardoso (que não são familiares, o primeiro é um escritor timorense que vive em Portugal, que veio apresentar o livro Requiem para um Navegador Solitário, e o segundo é um historiador português, que veio apresentar o livro Timor na 2.ª Guerra Mundial, As Crónicas do Tenente Pires), António Berbedo de Magalhães (que apresentou Timor-Leste, Interesses internacionais e Actores Locais), e Pedro Rosa Mendes (jornalista da Lusa em Timor e talentoso escritor, que apresentou Madre Cacau, um livro que editou em parceria com Alain Corbel, em 2004).
Estive na apresentação do livro de Luís Cardoso e no de Pedro Rosa Mendes. Não consegui comprar o primeiro, as consegui comprar o segundo. Comecei a lê-lo momentos antes da apresentação. Promete.
Também fui assistir à conferência Timor-Leste: Que futuro?, que contou com a presença de todos os escritores que referi e ainda com Abe Barreto, um outro escritor timorense. Comigo estava um auditório cheio de gente. Várias questões foram levantadas, como a riqueza que tarda em concretizar-se e, como não podia deixar de ser, a questão da escolha do português como língua oficial.
Pelos intervenientes, e em resposta a algumas provocações da plateia, ficou a ideia de uma escolha com base na construção de uma identidade que se quer afirmar numa zona geográfica onde se corria o risco de ser mais do mesmo. Outra forma interessante de ver a questão é como mais um desafio que se coloca à Nação timorense.
Na Feira do Livro esteve também uma exposição de Nelson Turquel, um fotógrafo timorense com muito talento. Os textos das fotos estavam à altura e foram escritos por Dulce Turquel. É uma pena não poder fazer das minhas lembranças a imagem que os vossos olhos vêem… em todo o caso, acredito que o talento deles chegará a vós um dia.

O tremor de terra…
Dia 19, no mesmo dia da abertura da Feira, de manhã, estavamos na praia, deitadinhos na toalha, quando sentimos a terra tremer, um abalo forte. A minha primeira reacção foi apoiar as mãos no chão… Foi interessante o sentimento. Quando estou num avião e há turbulência só me quero apanhar no chão. Quando a terra treme… é a terra que treme! Nem o chão que temos debaixo dos pés é seguro.
Mas não foi tudo, por volta das 20h, estavamos na sala cá de casa, eu, o Nelson e a Mara, cada um instalado no seu sofá e a terra tremeu outra vez. Desta vez pudemos ouvir o tecto, de contraplacado, a ranger. Tivemos direito a correr para baixo da ombreira da porta e tudo. Mas foi uma réplica pequena e nada mais aconteceu. Foi coisa de poucos segundos. Deu para recordar o que se aprende na escola e para rir com a reacção instantanêa.
Fiquei mais tarde a saber pelo meu irmão que o abalo da manhã foi de 6.5 na escala de Richter.

Neste mesmo fim-de-semana fiquei a saber de mais uma coisa muito estúpida. No mesmo dia da chegada do presidente, um polícia, irmão de um dos motoristas do Centro de Língua Portuguesa em Díli, morreu num acidente de viação. E não, não foi contra nada nem ninguém, ninguém foi contra ele. Foi muito mais estúpido que tudo isso: caiu num buraco. Imaginem o tamanho do buraco.

Passando para notícias mais alegres, muito mais alegres.
O Lore e o Camões, os cães cá da casa, estão o máximo. O Lore já tem dois anos e meio, quase. O Camões tem meses, meio ano, talvez. Estão em fases diferentes da vida. O Lore só quer que o deixem dormir, o Camões só quer brincar. Anda atrás do Lore e provoca, provoca. O resultado às vezes é que o Lore, aborrecido até mais não, resolve brincar e começa a correr com todas as forças que tem e o Camões não o consegue acompanhar. Qualquer dia há um fosso à volta dos contentores que temos quintal!
O Lore é um cão lindíssimo, sempre foi. O Camões foi-me descrito como um cão muito feio, sem cor definida, enfezado, muito medroso…
A verdade é que é um cachorro lindo, amarelo, com manchas brancas, rabo meio branco… um amor. Era medroso sim, mas agora vem ter connosco, faz chantagem comigo para lhe dar comida todos os dias ao almoço. Tem uns olhos lindos e meigos! Quando me sento no sofá vem lamber-me os pés. E às vezes acordamos com o alpendre cheio de terra, de alguma coisa que ele trouxe para brincar durante a noite. Quando pouso a mochila ele vem roer as fivelas. E já nos roubou uma luva de cozinha para brincar.
Temos ido com eles à praia. O Camões é um grande nadador, o Lore tem um medo de água impressionante. São os dois grandes investigadores, passeiam pela praia toda, deserta, para além de nós, e encontram muitos ossos que ficam de outros almoços – sim, os timorenses fazem o almoço na praia.

Este fim-de-semana fomos à praia. E levámos os cães. Em frente e à volta da casa do presidente, onde temos que passar, a segurança é apertadíssima, com muitas barreiras militares.
Para lá não nos mandaram parar, para cá sim. Um dos soldados altamente armados perguntou-nos se tínhamos tido uma boa manhã de praia. Dissemos que sim. Ele confirmou e disse que nadava bem, que nos viu. Respondi que sim, que o Camões nadava bem, mas que o Lore não gostava muito (claro que só apontei para os cães, não disse o nome!). Percebi depois que o Sr. estava a falar de mim. Valeram a pena as aulas de natação! Saudades!!!

A chuva, que por aqui, quando cai, cai mesmo deu-nos direito a mais uma tarde com alguns motivos para rir, porque a alternativa era apanhar banhos diluvianos cada vez que tinhamos que sair. E direito a passar em buracos que mais pareciam piscinas.
A parte má da tarde foi ver os campos de refugiados mais que inundados e ter a certeza de que as pessoas não vão sair de lá.

Estou a devorar livros. Desde que saí de portugal já li:
• O lado selvagem, de Jon Krakauer, que me desiludiu um bocadinho; esperava uma coisa diferente.
• Me and Mr Darcy, de Alexandra Potter. Eu e esta senhora temos mesmo muitas coisas em comum. As referências são as mesmas. E sim, ambas encontrámos o nosso Mr. Darcy.
• As velas ardem até ao fim, de Sándor Márai. Muito bonito, sem dúvida. Foi-me recomendado há uns anos por uma pessoa especial. Gostei de mais este encontro de gostos.
• Há monstros debaixo da cama?, de Bill Watterson. Calvin & Hobes no seu melhor.
• Marley & Me, de John Grogan. Resisti a este livro como resisto a todos os best sellers, normalmente. Fiquei tão feliz por ter cedido! Em Bali, a prever que não iria ter muito para ler por prazer durante os quatro meses aqui, comprei dois livros o Mr. Darcy e este. O primeiro é light, sem dúvida. Este é… fabuloso! É lindo, tudo, desde o nício até ao fim. No final chorei um bocado, não consegui evitar. É uma história verídica. E para além disso é a história de um cão de uma das minhas duas raças favoritas. Acho que qualquer pessoa que gosta de animais como eu choraria. É lindo, lindo, lindo. Pensei logo em algumas pessoas a quem o vou oferecer. E cada vez tenho mais vontade de ter um labrador lindo quando for grande. 

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